Meu dia de Zangief
Vendo toda essa confusão envolvendo o gordinho Zangief e o magrinho levando o pilão, lembrei de um fato parecido ocorrido com quem vos escreve, no longínquo ano de 1995. Na época, com 10 anos, eu era vítima fácil dos colegas mais populares. Uma série de fatores contribuíam para isso, entre elas a razão favorita de 10 a cada 10 bullyers: a aparência. Ao contrário do famoso gordinho australiano, meu caso era o inverso. Eu era tão magro, que não duvido que conseguissem observar todo o meu esqueleto usando apenas o farol alto de um carro. Minhas orelhas topogigianas davam o toque final à minha aparência abençoada por Deus.
Tipo eu.
No meu caso, havia um agravante. Eu estudava em um colégio particular cujo público alvo era a classe média alta da zona norte carioca. Classe social essa que eu não me enquadrava. Meus pais fizeram um grande esforço para manter eu e meu irmão neste escola, julgando que o esforço compensaria. Mal sabia eles que depois de todo o sacrifício, o filho resolvesse virar jornalista. Mas divago. Enfim. Enquanto meus colegas usavam tênis Mizuno arco-íris (juro que na época não soava tão gay) eu usava aquele modelo basicão da Olympikus (lembra?). Lá eu aprendi, apesar de não entender, que suas chances com as meninas aumentavam consideravelmente se sua mochila fosse da Osklen, em vez da mochila de rodinha que você gostou tanto no Carrefour.
Voltando ao caso Zangief, havia um grupo cuja diversão principal era jogar giz na cabeça de moleques como eu, entre outras demonstrações gratuitas de macheza infantil. Lembro bem que entre os bullyers, havia um que vamos chamar de Pedro, porque esse era mesmo o nome dele. Pedro era um garoto tão magro quanto eu que, apesar de possuir orelhas em proporções naturais, era… manco. Você deve estar estranhando o fato de um garoto com características tão perfeitas para ter sua cueca puxada até seus ovos dividirem-se entre hemisfério norte e sul estar no grupo dos valentões. A resposta é simples: sua família possuía muito dinheiro e ele era o responsável pelas melhores festas. Festas essas que eu, evidentemente, nunca participei.
Famoso cuecão
Aqui começa a minha história Zangief style. Em um momento de ausência da professora, o grupo do Pedro resolveu iniciar uma das famosas guerras de giz, que poderia facilmente ser renomeada de tiro-aos-nerds. Aliás, nerd é outra palavra que mudou seu sentido com o passar dos anos. Ser chamado de nerd , na época, só podia ser comparado na escala de xingamento ao “filho de puta com pai presidiário”. Hoje, é cool. Todos querem ser “nerds”. Mas voltemos ao ponto. Estávamos no meio dessa guerra de giz, quando me levantei para posicionar-me em um dos cantos, de forma que eu pudesse ao menos saber de que direção vinha o giz que acertava o meu olho. Neste momento, o nosso anti-herói Pedro, tentou me dar uma banda. Notei que seus amigos estavam entretidos demais para acobertar o parceiro “dono da festa”. Em um súbito momento de raiva acumulada e coragem restrita ao momento oportuno, chutei a única perna com a qual o manco poderia contar, fazendo todo o seu pouco peso acumular-se sobre a perna ruim, acontecendo o óbvio.
O grande Pedro, com seu 40 kgs, uma perna podre e seu tênis Mizuno, pôde observar à pouquíssimos centímetros de distância a cor do chão no qual ele costumava arrastar aquela perna houseana, enquanto exalava seu ar de superioridade, cujo único alicerce era a possibilidade de promover boas festas com o dinheiro de seus pais. Por poucos segundos a sala parou. Por mais que muitos reprimissem a vontade de gargalhar ou comemorar, era clara a vontade de todos - incluindo seus “amigos”. Neste momento a professora retornou, sem observar Pedro ainda se levantando. Ninguém mais voltou no assunto. Nem Pedro que não queria relembrar o ocorrido, nem seus amigos, que preferiram fingir que nada viram.
Seria mentira dizer que a perseguição parou, mas diminuiu bastante. Até o dia que mudei de escola e fui jogado em uma lata de lixo. Mas aí é assunto para outro post. Só sei que esse momento, meus queridos leitores, foi o auge do meu ginásio. O dia em que bandei um manco!



